Um gol é um evento raro, que acontece em qualquer momento do jogo e (numa primeira aproximação) sem “combinar” com o gol anterior.
É exatamente o tipo de fenômeno que a distribuição de Poisson descreve: dado o número médio de eventos esperados (λ, “lambda”), ela calcula a probabilidade de acontecerem 0, 1, 2, 3… eventos.
P(k gols) = e^(−λ) × λ^k / k!
Se um time deve marcar em média 1,5 gol, então:
| Gols | 0 | 1 | 2 | 3 | 4 | 5 |
|---|
| Prob. | 22,3% | 33,5% | 25,1% | 12,6% | 4,7% | 1,4% |
Repare que 1 gol é o resultado mais provável, embora a média seja 1,5. Essa é a primeira lição do modelo: a média não é o placar esperado, é o centro de uma distribuição.
Passo 1: reúna os dados
Você precisa de gols marcados e sofridos por time, separados em casa e fora, de uma mesma liga e temporada (ou janela recente). Fontes comuns: FBref, Understat, Football-Data.co.uk (este tem histórico em CSV).
Calcule também a média da liga:
- média de gols do mandante por jogo (ex.: 1,50)
- média de gols do visitante por jogo (ex.: 1,15)
Passo 2: calcule as forças de ataque e defesa
Compare cada time com a média da liga:
- Ataque = gols marcados pelo time (no mando em questão) ÷ média da liga naquele mando
- Defesa = gols sofridos pelo time ÷ média da liga. Acima de 1,00 significa defesa pior que a média.
Exemplo hipotético, Time A (mandante) contra Time B (visitante):
- A marca 1,80 em casa → ataque = 1,80 / 1,50 = 1,20
- B sofre 1,50 fora → defesa = 1,50 / 1,50 = 1,00
- B marca 1,00 fora → ataque = 1,00 / 1,15 = 0,87
- A sofre 1,15 em casa → defesa = 1,15 / 1,15 = 1,00
Passo 3: estime o λ de cada time no jogo
λ = ataque do time × defesa do adversário × média da liga (do mando)
- λ do Time A = 1,20 × 1,00 × 1,50 = 1,80
- λ do Time B = 0,87 × 1,00 × 1,15 = 1,00
Passo 4: gere a distribuição de cada time
| Gols | 0 | 1 | 2 | 3 | 4 | 5 |
|---|
| Time A (λ = 1,8) | 16,5% | 29,8% | 26,8% | 16,1% | 7,2% | 2,6% |
| Time B (λ = 1,0) | 36,8% | 36,8% | 18,4% | 6,1% | 1,5% | 0,3% |
Passo 5: cruze as duas distribuições
Assumindo que os gols dos dois times são independentes, a probabilidade de um placar é o produto das probabilidades. Exemplo: 1-1 = 29,8% × 36,8% ≈ 10,9%.
Some as células da matriz de placares e você obtém os mercados:
- Vitória do A: placares em que A marca mais → ≈ 56%
- Empate: diagonal da matriz → ≈ 23%
- Vitória do B: ≈ 21%
- Mais de 2,5 gols: o total de gols também é Poisson, com λ = 1,8 + 1,0 = 2,8. P(≤ 2 gols) ≈ 47%, logo over 2,5 ≈ 53%
- Ambos marcam: (1 − 16,5%) × (1 − 36,8%) ≈ 53%
Um detalhe que costuma surpreender o leitor: o placar mais provável (1-0 ou 1-1, empatados em ~10,9%) tem só cerca de 1 chance em 9. Nenhum placar isolado é “provável”, e é por isso que apostar em placar exato é tão difícil.
Passo 6: transforme probabilidade em odd justa
Odd justa = 1 / probabilidade:
- Vitória do A: 1 / 0,561 ≈ 1,78
- Empate: 1 / 0,231 ≈ 4,33
- Vitória do B: 1 / 0,208 ≈ 4,81
Se a casa paga 1,90 pela vitória do A, a odd está acima da sua odd justa, e seu modelo enxerga valor. Como vimos no artigo sobre Kelly, isso só vale se a probabilidade estimada for confiável, e um primeiro modelo simples quase nunca é preciso o bastante para isso. Comece usando-o para entender o mercado, não para apostar.
Passo 7: faça o mesmo em código
Também dá para fazer numa planilha com a função POISSON.DIST (o nome pode variar entre Excel e Sheets em português).
Onde o modelo falha (e por que isso é bom para aprender)
- Independência é uma simplificação. A formulação clássica de Poisson pode apresentar problemas na modelagem de alguns placares baixos, especialmente 0-0 e 1-1. A correção de Dixon-Coles foi desenvolvida, entre outras coisas, para tratar essa dependência específica.
- Amostra pequena engana. Com poucos jogos, um time com sorte na finalização parece ter ataque de elite. O ideal é usar xG em vez de gols, ou “encolher” as médias em direção à média da liga.
- Dados velhos pesam demais. Times mudam. Modelos melhores dão mais peso aos jogos recentes.
- O modelo não sabe de escalação. Lesões, suspensões, rodízio e motivação não entram na conta.
- Gols têm mais variância que Poisson prevê. Em algumas bases reais, observa-se maior variância do que a prevista pelo Poisson, fenômeno conhecido como overdispersion.
- Estado do jogo altera o comportamento. Quem está ganhando recua, quem está perdendo se expõe, e isso quebra a ideia de ritmo constante.
Conclusão
O valor do Poisson não está em “prever o jogo”, e sim em forçar você a pensar em probabilidades: o que o mercado está dizendo, o que os dados dizem, e onde as duas leituras divergem. É um bom primeiro degrau antes de xG, Dixon-Coles e modelos bayesianos.