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O dinheiro que iria para as bets vai para onde?

Por Bruno Favoretto · 29/09/2026

Dinheiro das Bets

Dinheiro das Bets

Com o fim das apostas reguladas, bilhões de reais que seriam destinados ao setor podem mudar de destino — e o futebol não será o único a disputar esse dinheiro

O boicote de clubes de futebol a uma reunião com o Ministério do Esporte, nesta terça-feira (29), colocou novamente em evidência uma questão que vai muito além dos patrocínios do futebol: o que acontece com o dinheiro que antes seria gasto pelas pessoas nas bets?

Não significa que os R$ 37 bilhões movimentados pelo mercado de apostas em 2025 serão automaticamente transferidos para o varejo, para os clubes, para o pagamento de dívidas ou para qualquer outro setor. Esse valor representa o tamanho do mercado.

O que pode mudar de destino é o dinheiro que os consumidores deixariam de gastar em apostas. E esse comportamento ainda precisa ser observado.

O futebol perde uma fonte de receita

O impacto mais imediato aparece no futebol profissional.

Segundo levantamento do UOL, os contratos de patrocínio máster de casas de apostas com clubes da Série A somavam pelo menos R$ 910 milhões em 2026. Dos 20 clubes da primeira divisão, 14 tinham uma bet como patrocinadora principal. Em 2025, os clubes da Série A haviam recebido R$ 1,03 bilhão em patrocínios de empresas do setor.

É uma quantia relevante, mas existe uma diferença fundamental entre dinheiro gasto pelo consumidor em apostas e dinheiro recebido pelo clube em patrocínio.

O primeiro pode mudar de destino porque o consumidor deixa de apostar. O segundo deixa de existir para aquele clube se a empresa patrocinadora sair do mercado.

É por isso que o futebol precisa encontrar novos anunciantes, novas receitas comerciais ou outras formas de compensar a perda.

Mas para onde vai o dinheiro que não será apostado?

Imagine um consumidor que destinava R$ 300 por mês às apostas. Se ele deixa de apostar, os R$ 300 não são automaticamente transferidos para uma loja, um restaurante ou um clube de futebol.

Ele pode comprar alimentos, pagar uma dívida, consumir outro serviço ou simplesmente colocar esse dinheiro embaixo do colchão.

Por isso, o efeito econômico do fim das bets dependerá menos do tamanho nominal do mercado e mais do comportamento que substituirá o gasto com apostas.

Os levantamentos publicados nos últimos dias apontam justamente para algumas dessas possibilidades: varejo, consumo essencial e pagamento de dívidas aparecem entre os destinos potenciais desse dinheiro, de acordo com matéria do UOL. Também existe a possibilidade de uma parcela permanecer no mercado de apostas por meio de operações ilegais.

Nada disso, porém, deve ser tratado como uma transferência automática. Se alguém deixa de gastar R$ 500 em apostas e usa R$ 500 para quitar uma dívida, por exemplo, o efeito econômico é diferente daquele provocado pela compra de R$ 500 em produtos. Se guardar o dinheiro, o efeito será diferente novamente.

O mesmo valor pode produzir consequências completamente diferentes dependendo do destino.

O mercado ilegal é uma variável

Existe ainda uma incógnita importante: quanto desse dinheiro continuará sendo direcionado às apostas por meio de plataformas ilegais.

A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) estimou que o mercado ilegal poderia chegar a 82% do setor após o fim das operações reguladas. Esse número deve ser tratado como uma projeção da entidade, e não como uma medição do que efetivamente acontecerá.

Se uma parcela significativa dos consumidores migrar para operadores clandestinos, o efeito sobre o consumo formal, a arrecadação e o próprio futebol será diferente daquele produzido por uma redução efetiva dos gastos com apostas.

É uma das variáveis que precisarão ser acompanhadas nos próximos meses.

O desafio do futebol é outro

Para os clubes, portanto, a questão não é disputar os R$ 37 bilhões do mercado de apostas.

O problema é substituir uma fonte de receita que cresceu rapidamente e passou a ocupar espaço relevante no futebol brasileiro.

Os clubes terão de procurar empresas de outros setores dispostas a investir em patrocínio. E isso depende de uma variável simples: existe demanda suficiente por esse espaço publicitário?

Uma camisa que recebia R$ 100 milhões de uma casa de apostas não necessariamente encontrará outro patrocinador disposto a pagar os mesmos R$ 100 milhões.

Esse talvez seja o principal ponto para acompanhar.

O dinheiro que antes seria gasto em apostas pode, em alguma medida, continuar circulando na economia. Mas isso não significa que o futebol receberá uma parcela desse valor.

O consumidor decide o destino do próprio dinheiro. As empresas decidem onde investir em publicidade. E os clubes precisam convencer novos parceiros de que suas propriedades comerciais continuam valiosas.

São fluxos diferentes.

A verdadeira pergunta

O fim das bets cria, portanto, uma espécie de experimento econômico. Uma parcela do dinheiro que seria destinada às apostas terá outro destino. A questão é descobrir qual.

  1. Quanto irá para o consumo?
  2. Quanto será usado para quitar dívidas?
  3. Quanto será poupado?
  4. Quanto migrará para o mercado ilegal?
  5. E quanto simplesmente deixará de ser gasto?

No futebol, uma pergunta adicional será necessária: quanto da receita perdida com os patrocínios das bets conseguirá ser substituída por outras empresas?

As respostas não estarão nos R$ 37 bilhões sozinhos. O número mostra o tamanho que o mercado de apostas alcançou. O que realmente interessa daqui para frente é observar o comportamento que surgirá depois dele.

Porque o dinheiro não tem destino fixo.

Quando uma forma de consumo desaparece, o que muda não é necessariamente a existência do dinheiro, mas a escolha de quem o recebe.