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Mercado offshore de apostas: como funciona e por que ele importa no Brasil?

Por Bruno Favoretto · 22/09/2026

Ilustração editorial sobre Mercado offshore nas apostas

Entenda o que é uma bet offshore e como funciona o mercado de apostas fora da regulamentação brasileira

O termo offshore aparece com frequência no debate sobre apostas esportivas, especialmente quando se discute regulamentação, bloqueio de plataformas e uma possível proibição das bets.

Mas offshore não significa simplesmente “site estrangeiro”.

O conceito está relacionado à operação de uma empresa a partir de uma jurisdição diferente daquela em que está o consumidor. No mercado brasileiro, o ponto fundamental é saber se a empresa possui autorização para oferecer apostas no Brasil.

Desde 1º de janeiro de 2025, somente empresas autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) podem operar nacionalmente com apostas de quota fixa. As plataformas autorizadas utilizam o domínio .bet.br.

O que é mercado offshore?

De maneira simplificada, o mercado offshore de apostas é formado por operadores sediados ou estruturados fora do Brasil que oferecem seus serviços a consumidores brasileiros sem possuir a autorização brasileira necessária para atuar no país.

A palavra offshore, porém, descreve principalmente a localização ou estrutura da operação.

Já “ilegal” é uma classificação relacionada à situação jurídica da oferta no Brasil.

Por isso, é importante não tratar automaticamente toda empresa estrangeira como ilegal.

O critério relevante para o consumidor brasileiro é:

A empresa está autorizada a oferecer apostas no Brasil?

Atualmente, somente operadores autorizados pela SPA podem oferecer apostas de quota fixa em âmbito nacional.

Offshore é a mesma coisa que ilegal?

Não necessariamente.

Uma empresa pode ter sede ou estrutura empresarial no exterior e, ainda assim, obter autorização para atuar no mercado brasileiro.

O que caracteriza o problema regulatório é a oferta não autorizada ao público brasileiro.

A própria Secretaria de Prêmios e Apostas mantém uma lista de empresas autorizadas a operar no país.

Portanto, uma maneira mais precisa de separar os conceitos é:

Operador autorizado: possui autorização brasileira para oferecer apostas.

Operador offshore autorizado: empresa com estrutura estrangeira, mas autorizada a operar no Brasil dentro das regras nacionais.

Operador offshore não autorizado: oferece apostas a brasileiros sem a autorização exigida.

É principalmente o terceiro grupo que integra o chamado mercado ilegal de apostas.

Como funcionava o mercado antes da regulamentação?

Antes da implementação do atual sistema regulatório, brasileiros já tinham acesso a plataformas estrangeiras de apostas.

A regulamentação mudou esse cenário ao criar um sistema formal de autorização, fiscalização e monitoramento.

A Lei nº 13.756/2018 legalizou as apostas de quota fixa no âmbito esportivo, enquanto a Lei nº 14.790/2023 ampliou o marco legal e estabeleceu regras para a exploração da atividade.

A partir de 2025, o modelo passou a exigir autorização federal para a operação nacional.

Isso criou uma divisão mais clara entre:

mercado regulado brasileiro

e

mercado não autorizado.

Por que o mercado offshore continua sendo relevante?

Porque regulamentar a oferta não significa necessariamente eliminar a demanda.

Se consumidores continuam interessados em apostar, existe um incentivo econômico para que operadores tentem atender essa demanda.

É nesse ponto que aparece o risco de migração.

Imagine:

Mercado regulado

Apostador → operador autorizado → sistema financeiro brasileiro

Agora imagine uma restrição severa:

Mercado paralelo

Apostador → operador não autorizado → estrutura offshore

A atividade pode mudar de ambiente sem necessariamente desaparecer completamente.

O que o governo pode fazer contra o mercado ilegal?

O Brasil possui mecanismos específicos para combater operadores não autorizados.

A SPA informa que atua para bloquear URLs de sites ilegais, impedir publicidade e bloquear transferências financeiras relacionadas a operadores não autorizados, em conjunto com outras instituições.

Em setembro de 2026, a SPA publicou a Portaria nº 2.750/2026, ampliando os procedimentos destinados a prevenir, identificar e reprimir transações de pagamento relacionadas à exploração irregular de apostas de quota fixa.

Ou seja, o combate ao mercado offshore não depende apenas do bloqueio de sites.

Ele envolve diferentes pontos da cadeia:

site → publicidade → pagamentos → operadores → intermediários.

Bloquear o site resolve?

Não necessariamente.

Um bloqueio pode dificultar o acesso a determinada plataforma, mas não significa automaticamente que toda a demanda desapareceu.

Um consumidor que encontra uma plataforma bloqueada pode:

  • abandonar as apostas;
  • procurar outro operador autorizado;
  • procurar uma plataforma não autorizada;
  • simplesmente esperar que o serviço volte a estar disponível.

O resultado depende do comportamento dos consumidores e da capacidade de fiscalização.

É justamente aqui que o conceito de elasticidade da demanda se torna importante.

Mercado offshore e elasticidade da demanda

Se o consumidor tiver muitas alternativas disponíveis, uma restrição sobre determinado operador pode provocar uma migração relativamente fácil.

Se houver poucas alternativas, o mesmo bloqueio pode produzir uma queda maior na atividade.

Por isso, é importante diferenciar:

queda da demanda

de

migração da demanda.

Se uma bet perde 100 mil usuários, por exemplo, não é possível concluir apenas com esse dado que 100 mil pessoas deixaram de apostar.

Uma parcela pode simplesmente ter migrado para outra plataforma.

Para medir o efeito real de uma restrição, seria necessário observar o mercado como um todo.

O problema da fiscalização

Uma das principais diferenças entre o mercado regulado e o mercado ilegal é a capacidade de fiscalização.

No mercado autorizado, o Estado consegue estabelecer regras para:

  • identificação dos usuários;
  • pagamentos;
  • publicidade;
  • prevenção à lavagem de dinheiro;
  • jogo responsável;
  • fiscalização das empresas;
  • tributação;
  • integridade das competições.

Quando a operação ocorre fora da autorização brasileira, a capacidade de aplicar essas regras diretamente sobre o operador é reduzida.

A SPA afirma que seus acordos de cooperação envolvem justamente o monitoramento do mercado regulado e o combate a práticas como operação de sites ilegais e lavagem de dinheiro.

O mercado offshore também pode envolver riscos financeiros

O mercado ilegal não é apenas uma questão de regulação das apostas.

As autoridades brasileiras também investigam casos nos quais plataformas ilegais são utilizadas em estruturas financeiras ilícitas.

Em julho de 2026, a Polícia Federal realizou a Operação Slots, com apoio técnico da SPA, para investigar um esquema envolvendo plataformas ilegais de apostas e suspeitas de lavagem de dinheiro. Segundo a PF, a investigação apontava para recursos provenientes do tráfico de drogas.

Outro caso, também em julho, envolveu uma operação contra organizações investigadas por exploração clandestina de apostas na Paraíba, com bloqueio de mais de R$ 100 milhões, segundo o Ministério da Fazenda.

Esses casos não significam que todo operador offshore esteja envolvido em atividades criminosas. Eles mostram, porém, por que as autoridades tratam o mercado ilegal também como uma questão de controle financeiro e fiscalização.

E se a oferta legal for proibida?

Esse é um dos cenários mais interessantes para estudar.

Se a oferta legal desaparecer, podem ocorrer diferentes movimentos:

1. Parte dos consumidores abandona as apostas

O acesso fica mais difícil e uma parcela da demanda desaparece.

2. Parte migra para outros mercados

Consumidores procuram plataformas alternativas.

3. O mercado offshore ganha espaço

Operadores não autorizados passam a tentar atender a demanda que deixou de ser atendida pelas empresas legais.

4. O Estado intensifica o bloqueio

Pode aumentar a fiscalização sobre sites, pagamentos, publicidade e intermediários.

O tamanho de cada efeito depende do comportamento dos consumidores, da capacidade tecnológica de bloqueio e da facilidade de acesso às alternativas.

O que acontece com a arrecadação?

Outro aspecto é fiscal.

No mercado regulado, o Estado consegue aplicar as regras tributárias previstas para a atividade.

Quando a atividade migra para operadores não autorizados, a capacidade de arrecadação e monitoramento pode diminuir.

Isso cria uma questão econômica relevante:

Uma atividade que não desaparece, mas deixa o mercado regulado, pode continuar movimentando dinheiro sem gerar o mesmo nível de arrecadação e controle para o Estado.

Por isso, o tamanho do mercado offshore é uma variável importante para avaliar os efeitos de mudanças regulatórias.

Como medir o tamanho do mercado offshore?

Esse é um dos grandes desafios.

Uma parcela do mercado ilegal não é observável diretamente.

Por isso, estimativas podem utilizar indicadores indiretos, como:

  • tráfego de internet;
  • buscas por determinadas plataformas;
  • movimentações financeiras;
  • publicidade;
  • número de domínios bloqueados;
  • volume de transações suspeitas;
  • reclamações de consumidores;
  • dados de afiliados;
  • apreensões e investigações.

Nenhum indicador isolado necessariamente representa o tamanho real do mercado.

Uma análise mais robusta precisa combinar diferentes fontes.

Offshore não significa necessariamente melhor ou pior

Do ponto de vista analítico, é importante evitar uma simplificação comum.

O debate não deveria ser reduzido a:

regulado = bom

ou

offshore = ruim.

A diferença fundamental é institucional.

No mercado regulado, existe uma estrutura brasileira de autorização e fiscalização.

No mercado não autorizado, essa estrutura não se aplica da mesma maneira ao operador.

Isso permite comparar objetivamente aspectos como:

CaracterísticaMercado reguladoMercado não autorizado
Autorização da SPASimNão
Fiscalização brasileiraAplicávelLimitada
Domínio .bet.brSimNão
Regras de publicidadeAplicáveisMais difíceis de aplicar
Monitoramento financeiroEstruturadoMais difícil
Tributação brasileiraAplicávelMais difícil de cobrar
Proteção regulatória brasileiraPrevistaLimitada
Possibilidade de bloqueioReguladaPode ser alvo de bloqueio

O ponto central: oferta x demanda

O mercado offshore fica especialmente importante quando existe uma diferença entre o que o Estado permite ofertar e o que os consumidores desejam consumir.

Se a demanda continuar existindo, a retirada da oferta legal pode criar um espaço econômico.

Esse espaço pode ser ocupado por:

  • operadores estrangeiros;
  • plataformas não autorizadas;
  • novos domínios;
  • intermediários;
  • outros canais de distribuição.

Isso não significa que o mercado ilegal necessariamente crescerá em qualquer cenário.

Significa que existe uma possibilidade de substituição da oferta que precisa ser considerada.

Conclusão

O mercado offshore de apostas é uma peça importante para entender o funcionamento do setor brasileiro.

A regulamentação criou um mercado nacional baseado em autorização, fiscalização e regras específicas. Desde 2025, somente operadores autorizados pela SPA podem atuar nacionalmente com apostas de quota fixa.

Ao mesmo tempo, a existência de demanda por apostas cria um desafio adicional: impedir a oferta legal não significa necessariamente eliminar a demanda.

Se parte dos consumidores continuar querendo apostar, pode surgir espaço para operadores não autorizados.

Por isso, o tamanho do mercado offshore depende de uma combinação de fatores:

demanda + facilidade de acesso + alternativas disponíveis + meios de pagamento + capacidade de fiscalização.

Para analisar uma política de restrição às apostas, portanto, não basta perguntar quantas bets legais deixaram de operar.

É necessário perguntar:

Quanto da atividade desapareceu e quanto migrou para o mercado offshore?

Essa é a diferença entre medir a queda do mercado regulado e medir o efeito real sobre o mercado total de apostas.

Lab do Esporte

No Lab do Esporte, o mercado offshore pode ser estudado a partir de dados sobre demanda, elasticidade, tráfego, pagamentos, migração de usuários e regulação.

Porque uma mudança no mercado regulado pode ser observada diretamente.

Já o que acontece fora dele exige estimativa, cruzamento de dados e análise econômica.