Relato do ex-jogador sobre perdas financeiras chama atenção para os cuidados jurídicos na gestão da carreira de atletas e artistas
O relato de Roberto Carlos sobre a perda de praticamente todo o patrimônio acumulado durante a carreira chama atenção para uma questão que vai além do dinheiro: os riscos envolvidos na delegação de decisões a empresários, agentes e outros profissionais que administram a vida de atletas e artistas.
Durante participação no Portugal Football Summit, o ex-jogador afirmou ter enfrentado problemas com um antigo empresário e questões familiares. Segundo Roberto Carlos, ele chegou a receber documentos cuja existência desconhecia e que a situação resultou em uma perda financeira de aproximadamente 99% do patrimônio acumulado durante a carreira.
O episódio também levanta uma discussão sobre como pessoas públicas podem proteger não apenas seus recursos, mas também a própria imagem, privacidade e autonomia.
Confiança não elimina a necessidade de controle
Atletas e artistas costumam contar com empresários, agentes, advogados, assessores e gestores para administrar diferentes aspectos de suas carreiras. A delegação dessas funções, porém, não significa necessariamente abrir mão do acompanhamento das decisões que podem afetar patrimônio e direitos pessoais.
Para a advogada Thaluana Alves, casos como o de Roberto Carlos mostram a importância de estabelecer mecanismos de proteção desde o início da carreira.
“Uma carreira extraordinária não elimina a vulnerabilidade que pode existir nas relações de confiança” — Thaluana Alves, advogada especialista em direito do trabalho
Segundo a especialista, contratos claros, procurações específicas, definição dos limites de atuação e prestação de contas são mecanismos importantes para reduzir riscos.
“Quanto maior o patrimônio e mais complexa a carreira, mais importante é que decisões relevantes não fiquem concentradas nas mãos de uma única pessoa e que exista acompanhamento jurídico e financeiro independente”, afirma Thaluana.
Patrimônio vai além do dinheiro
Para pessoas que construíram uma carreira pública, os riscos também envolvem direitos ligados à personalidade.
Nome, imagem, privacidade e reputação podem representar ativos importantes para atletas e artistas e estão sujeitos a proteção jurídica. Uma utilização não autorizada da imagem ou a divulgação indevida de informações pessoais, por exemplo, pode gerar consequências que vão além de uma perda financeira.
“A imagem, o nome, a privacidade e a reputação também integram uma esfera de proteção jurídica extremamente valiosa. Para um artista ou atleta, esses elementos muitas vezes foram construídos ao longo de uma vida inteira”, explica Thaluana.
O que atletas e artistas podem fazer
A especialista recomenda que pessoas públicas mantenham acesso às informações relacionadas à própria carreira e acompanhem documentos, contratos e procurações assinados em seu nome.
Entre as medidas apontadas estão:
- estabelecer claramente os poderes concedidos a empresários e representantes;
- utilizar procurações específicas, evitando autorizações excessivamente amplas;
- exigir prestação periódica de contas;
- manter acompanhamento jurídico e financeiro independente;
- conhecer os contratos e documentos assinados em seu nome;
- preservar registros de operações e decisões relevantes.
Quando aparecem documentos ou obrigações que a pessoa afirma desconhecer, a orientação é reunir informações e verificar quem praticou cada ato e em quais condições.
“Dependendo do caso concreto, podem existir medidas judiciais e extrajudiciais para apurar responsabilidades, discutir a validade de determinados negócios e buscar eventual reparação”, afirma a advogada.
O caso de Roberto Carlos, portanto, também serve para discutir um aspecto menos evidente da gestão de carreiras: confiar em profissionais não significa abrir mão de transparência, acompanhamento e autonomia sobre as próprias decisões.