Em sua coluna no UOL, Milly Lacombe lamentou que a popularização das bets esteja mudando a forma como as pessoas assistem ao futebol.
De acordo com a jornalista, as bets estão tornando os torcedores e espectadores mais desconfiados de tudo o que acontece em campo. O atacante perdeu um gol na cara? Só pode ser por causa de bet. O zagueiro deu um carrinho por trás e foi expulso? Bet! O técnico do Palmeiras apontou para as partes genitais? Bet!
Milly usa como exemplo a nova teoria da conspiração envolvendo Vini Jr e o pênalti não batido contra a Noruega, segundo a qual o atacante brasileiro supostamente evitou bater para que as casas de apostas não perdessem dinheiro.
A probabilidade de haver um pênalti para o Brasil, e de Vini bater e converter, pagava muito e quebraria a banca. Então, diz a piração, Vini não bateu. Não acredito que isso tenha acontecido, nada indica que tenha, mas o que importa aqui é saber que o sentimento paranoico é real e que já não nos relacionamos com o jogo como antes.
Milly Lacombe
Pode ser que as bets tenham mesmo intensificado uma cultura de suspeita. Mas é importante lembrar que SEMPRE FOMOS PARANOICOS!
Somos verdadeiros artistas quando o assunto é encontrar teorias para as derrotas do Brasil em Copas do Mundo. Essa é uma tendência muito mais antiga do que propriamente a admiração que nutrimos por atacantes velozes e pontas dribladores.
A predisposição do torcedor para encontrar uma explicação extraordinária para uma derrota importante sempre existiu. As bets só fornecem novos personagens para essas narrativas, mas a lógica conspiratória antecede em muito o mercado de apostas.
Vamos aos exemplos!
Racha Rio-São Paulo na Tragédia do Sarriá
Em 1982, na Copa do Mundo realizada na Espanha, um dia após o Brasil perder por 3 a 2 para a Itália — episódio que ficou consagrado como “Tragédia do Sarriá” –, surgiram boatos sobre um “racha” no elenco, entre jogadores cariocas e paulistas.
A teoria dizia que os jogadores não se davam bem e evitavam se ajudar, passar a bola, entre outras funções básicas exercidas em campo.
Tudo desmentido pelos jogadores e, claro, pela simples análise visual das partidas, com essa seleção marcando muitos gols, com os jogadores tabelando, passando e, enfim, se ajudando em campo!
A promoção das tampinhas da Coca em 1994
Até mesmo quando o Brasil vence nós fomos capazes de criar teorias conspirarótias. Em 1994, quando o Brasil foi tetra, surgiram histórias envolvendo a promoção das tampinhas da Coca-Cola.
Nessa teoria, as pessoas acreditavam que o Brasil teria sido “ajudado” para vencer e, consequentemente, favorecer uma campanha promocional da gigante dos refrigerantes.
Para quem não lembra, a promoção da Coca-Cola, chamada “Bolão da Copa”, pedia que o público guardasse tampinhas marcadas com palpites de três seleções, do primeiro ao terceiro lugar daquele Mundial.
Quem “acertasse” o pódio final ganhava um prêmio equivalente a 1,5 milhão de URVs (a moeda da época antes do Real), além de sorteios de veículos 0km.
Qual foi o problema? Supostamente, a Coca-Cola havia impresso muitas tampinhas com a Itália campeã, Brasil em segundo lugar e Suécia em terceiro, o que resultaria em uma maior distribuição de carros nos tais sorteios.
Para tornar tudo ainda mais suspeito, no fim das contas, assim que o Brasil foi campeão, cada portador da tampinha com a posição Brasil, Itália e Suécia ganhou o equivalente a 3,75 URVs, um prêmio 39.999.900% menor do que o prometido pela marca de refrigerantes.
Isso era o equivalente a 400 mil tampinhas vencedoras. O problema é que marketeiros da Coca-Cola disseram que cada combinação tinha apenas 80 mil tampinhas equivalentes. A Coca também estimativa que as pessoas jogassem tampinhas fora, e somente 20% das pessoas guardassem as tampinhas.
Isso demonstra que, na verdade, 2 milhões de tampinhas com a combinação Brasil, Itália e Suécia foi produzida. Pior: a combinação Itália, Brasil e Suécia teria tido um número ainda maior de tampas produzidas, um prato cheio para os teóricos da conspiração!
Se vocês soubessem…
Já em 1998 a teoria da vez era que o Brasil entregou a final da Copa para a França.
A história circulava em correntes de e-mail, e dava conta de que Ronaldo, que havia sofrido uma convulsão no dia da partida, foi obrigado a jogar por interesses comerciais da Nike.
O e-mail começava com “Se vocês soubessem o que aconteceu na Copa, ficariam enojados”.
A realidade é cruel
É fato que as bets têm ocupado uma fatia cada vez maior em todos os aspectos do futebol atual.
As casas de apostas já são as maiores patrocinadoras dos times, estão em todos os comerciais de TV no meio de uma partida e inclusive já tomaram de assalto até mesmo as transmissões de partidas, com comentaristas de emissoras falando sobre odds e incentivando o público apostar.
No entanto, culpar as bets pela queda do Brasil na Copa diante da Noruega é uma insanidade!
O Brasil vive uma entresafra de jogadores que dá raiva de ver em campo. Há tempos que nossos jogadores não têm personalidade, estão menos técnicos e menos talentosos. Nosso ciclo de Copa foi uma piada, com quatro treinadores em quatro anos. Quase 100 jogadores foram testados antes da Copa começar. Não temos padrão de jogo, nem grandes ídolos. O nosso melhor jogador dos últimos 15 anos está em fim de carreira, sem condições físicas e, aparentemente, também sem condições mentais!
Mas entendo que quando um resultado é emocionalmente difícil de aceitar, muitas pessoas preferem acreditar em uma conspiração do que admitir que o adversário foi melhor ou que o futebol envolve acaso.
Só que é fundamental lembrar: esse mecanismo é antigo e independe da existência das casas de apostas!
As apostas podem ter mudado o vocabulário das suspeitas, mas não criaram a necessidade de encontrar culpados invisíveis para derrotas dolorosas. Ela já existia muito antes das bets.